Narrações em primeira pessoa e as histórias que são muito mais do que se é mostrado

Toda expressão artística é a visão de mundo de seu criador e cada pessoa tem uma visão de mundo muito subjetiva. Toda narrativa tem a visão de seu autor do mundo, mesmo que de forma não muito clara, essa visão sempre é colocada. E em muitas narrativas a história é contada de um ponto de vista ainda mais subjetivo não colocando todos os personagens como “realmente são”, mas com a impressão de um (ou alguns) desses personagens. Algumas vezes nas obras audiovisual isso é óbvio através de recursos como quebra da quarta parede e narração em off, mas outras vezes essa narração camuflada.

Nessa lista irei indicar cinco produções audiovisuais com narração em primeira pessoa. Terá spoliers de todas as produções então se não viu ainda pule o tópico ou vai correndo atrás assistir e depois volte aqui.

  • Ilha do Medo – Martin Scorsese, 2010
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Cena Ilha do Medo

Nesse thriller dirigido por Scorsese dois detetives são mandados a uma ilha que serve de presídio para criminosos com problemas psíquicos para investigar o desaparecimento de uma mulher. Porém, nada é como realmente parece. Como toda história de suspense.

Durante a investigação os detetives começam a notar que há algo muito errado naquela ilha. Além da história de desaparecimento, que parece não se encaixar, a prisão esconde diversos segredos. Aparentemente pesquisas antiéticas são realizadas ali, pacientes torturados e tudo mais que pode se esperar de uma prisão ou hospício nos anos 50.

No terceiro ato é mostrado que na verdade tudo era um teatro criado para guiar os delírios do personagem principal que sofre de um transtorno psíquico. Seus psiquiatras criam essas intervenções para seu tratamento.

Teddy sofreu um sério trauma ao descobrir que sua esposa assassinou seus três filhos e a matou. Para suportar a dor da tragédia vivida sua mente entra em estado de desrealização e cria uma nova personalidade e novas memórias para reparar suas dores.

O público é enganado durante toda a obra assim como o protagonista se engana. Somos levados a crer que a visão do personagem do DiCaprio é a realidade dentro daquele universo e nos chocamos ao descobrirmos toda a verdade, tal como o Teddy.

  • Capitu – Luiz Fernando Carvalho, 2008

Nessa minissérie criada pela Rede Globo para o centenário de morte de um dos maiores escritores brasileiros, Machado de Assis, é adaptada para o recurso audiovisual um dos livros mais importantes da literatura nacional. Assim como no livro a produção tem a presença do Bento Santiago (Bentinho/Dom Casmurro) idoso narrando a sua trágica história de amor com sua vizinha.

Capitu
O olhar dissimulado que a moça ainda jovem teria, segundo o narrador da história (cena da minissérie)

Bentinho é advogado e em toda narrativa tenta provar a falta de caráter de sua falecida esposa (Capitu) para convencer público numa reviravolta próxima ao final (que todo mundo já sabe qual é) que ela o traiu com seu melhor amigo (Escobar) e eles tiveram um filho (Ezequiel).

O Dom Casmurro é o exemplo mais explícito (atualmente) de narrador nada confiável. Com muito talento para a persuasão, uma relação com a figura materna digna de estudos psicanalíticos e uma psique duvidosa ele seduz o leitor/espectador a acreditar na versão dele na história, mas nunca é mostrada versão de qualquer outro personagem.

Não podemos afirmar que Capitu traiu ou não, apesar de sermos o tempo inteiro convencidos a acreditar que ela foi adultera. As únicas coisas que podemos afirmar na obra são relativas ao narrador que sem querer se expõe para contar sua história e mostra defeitos de seu próprio caráter.

  • O Cheiro do Ralo – Heitor Dhalia, 2007

Lourenço é o narrador personagem desse longa brasileiro. Dono de uma loja de objetos usados para conseguir sucesso profissional ele se torna uma pessoa completamente apática. A única coisa que consegue o atingir é o insuportável cheiro que vem do ralo de seu banheiro.

Como repete em diversas vezes no filme ele não ama ninguém. Todos para ele se resumem a objetos e funções. Ele desiste de seu casamento, acha aquilo fútil, afirma nunca ter gostado da mãe, não conhece seu pai. Nunca pergunta o nome de seus clientes ou funcionários. O único nome perguntado durante o filme ele considera tão feio que jura não lembrar.

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Lourenço e o olho de vidro em O Cheiro do Ralo

Como o protagonista não busca conhecer as pessoas além do objeto que elas trazem também não sabemos os nomes dos personagens. Temos só a visão de mundo doentia do narrador que se torna obcecado primeiro por uma bunda e oferece dinheiro para vê-la. Tratando a simples atendente de lanchonete encantada com o homem culto que mostra interesse por ela como um objeto. Depois por um olho de vidro o qual ele inventa histórias relacionadas a seu pai e cria apego.

Entrando em um estado cada vez mais decadente Lourenço passa a tratar cada vez pior seus clientes. Coisifica uma delas a ponto de chegar a uma linha tênue entre desconforto e abuso sexual. Vê tudo decair em um clímax surreal onde o “inferno” invade o seu espaço.

Mesmo sabendo muito pouco sobre o personagem toda visão do filme é feita a partir do olhar dele. Tudo é podre e banal tal qual o personagem vê, mas nada chega a o nível de podridão e banalidade da própria existência de si. A ideia de que vemos no mundo o olhar que projetamos em nós.

  • Lolita – Adrian Lyne, 1997

A mais polêmica e com certeza a mais doentia obra dessa lista. Lolita tem um narrador nada confiável. Humbert é um doente, criminoso, hediondo e mais várias coisas terríveis.

O professor Humbert casa-se com Charlotte a dona da pensão onde mora mesmo sem suportá-la para ficar próximo de sua enteada pré-adolescente (Dolores) que acredita corresponder a sua paixão. Assim como em Capitu temos a visão do narrador moldando como os personagens são apresentados em cena.

Lolita 1997
Primeira aparição de Lolita para Humbert. Cena “male gaze” tal qual o narrador vê a jovem.

Dolores, chamada por Humbert de Lolita, é mostrada o tempo inteiro como uma menina sensual que tentava a todo momento seduzir seu padrasto. Após a precoce morte de sua mãe Dolores é obrigada a viajar com o narrador contra sua vontade.

A história é o tempo inteiro mostrada como um romance erótico. Lolita queria estar com ele, estava feliz e realizada com a viagem. A personagem é mostrada como num jogo de sedução e todas suas ações são colocadas com o propósito de seduzir seu “parceiro sexual”*. Da sua maneira de brincar com a cama massageadora, sua forma de ler um livro, chupar pirulito e até tentativas de fugir. Tudo é visto como forma de mostrar interesse sexual no professor.

O filme é feito para interpretarmos de maneira superficial como um romance, afinal vemos a história pelo olhar hediondo de Humbert que acredita em sua insanidade que viveu um trágico romance. Todavia, se avaliarmos um pouco mais a fundo percebemos que a narração é tendenciosa. Obviamente uma adolescente não teria táticas de sedução tão fortes a ponto de convencer alguém com o triplo de sua idade. O professor projetava seu desejo nela e interpretava as atitudes da jovem de acordo com os seus desejos. Assim, acredita que seu amor e tesão eram recíprocos.

*Não há parceria sexual. Há um ato de abuso entre um homem adulto e uma adolescente.

  • O Filho de Saul – László Nemes, 2015

No vencedor de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2016 temos uma maneira diferente das anteriores de contar a história do ponto de vista do protagonista. Esse filme consegue dar uma visão completamente subjetiva da história sem usar narração em off, quebra da quarta parede, plot twist ou outro dos recursos mais comuns.

Saul é um prisioneiro em Auschwitz encarregado de levar os corpos mortos que se depara com algo surpreende: uma criança que não morreu nas câmeras de gás. Ao ver aquele menino lutando contra gases tóxicos através de tosses Saul consegue enxergar a esperança em sobreviver aquele holocausto. Por conta disso o protagonista resolve roubar o corpo da criança e buscar um rabino para realizar um enterro e assim salvar a alma* do pequeno que tanto lutou pela sua vida.

O Filho de Saul
Cena inicial de O Filho de Saul

A escolha da direção é acertada em não mostrar os horrores daquele campo de concentração. Para o personagem aquilo era rotina, seriam só cenas gráficas gratuitas para o espectador se chocar. A violência do filme não está nos corpos magros, nus, mortos e amontoados nas câmeras de gás e sim na insanidade de ter isso como uma rotina a ponto de nem reparar mais.

A câmera quase nunca subjetiva, mas sempre focada no personagem principal e no que ele dá atenção dá ao espectador uma proximidade ao que é importante para Saul e o que ele está sentindo. A obra imerge em lidar com a primeira pessoa, sem usar diretamente a primeira pessoa. Os planos longos e silenciosos são como aquele momento da vida do protagonista: entediante e vazio.

Em meio a sua luta para enterrar seu “filho” há rebelião, massacres (além dos cotidianos), opressões, brigas, mas nada disso é focado. A vida de Saul é salvar aquela criança toda a sua volta, por mais impactante que seja, é esquecida em prol dessa meta.

*Para o judaísmo a cremação é proibida, pois é considerada violenta por trazer angústia à alma. A maneira correta é um enterro em terra para que o corpo se deteriore devagar purificando/liberando a alma.

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