A não tão ficção de Ex Machina

“Ex_Machina: Instinto Artificial” é um filme de 2015 que ganhou Oscar de Melhores Efeitos Visuais, com roteiro e direção por Alex Garland e, acredito que, não recebeu devida atenção. Eu não lembro de como foi a recepção do filme no ano em que foi lançado, mas sei que filmes como “Her”, de 2014, que também tratam a relação homem x máquina ainda têm citações e fãs até hoje. Isso não acontece com Ex Machina.

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Ex Machina (foto: reprodução/internet)

A relação entre homem x máquina é discutida nas artes há algum tempo. São inúmeros exemplos de livros, filmes, pinturas e manifestações artísticas que envolvem concepções futuristas para alertar sobre o nosso comportamento dependente de máquinas. Em “Her”, por exemplo, Spike Jonze mostra um romance amoroso entre um homem e um computador, levando a questionamentos sobre a solidão e a carência que a era da tecnologia traz às vidas humanas, algumas já sem vontade de ter relações sociais entre humanos e preferindo a companhia de computadores, televisores e jogos como entretenimento. Não estou dizendo que é ruim preferir aparelhos eletrônicos a seres humanos, mas será que é normal?

Então vamos falar sobre “Ex Machina” (contém spoiler)

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Ava é um robô com inteligência artificial (foto: reprodução/internet)

A trama envolve três personagens principais: Nathan (Oscar Isaac) é CEO da empresa Blue Book que é uma plataforma de buscas na internet – algo como um Google; Caleb (Domhnall Gleeson) é programador na Blue Book e ganha uma promoção para passar uma semana na casa do CEO, mas ao chegar lá ele descobre que, na verdade, sua missão é testar um androide dotado de inteligência artificial; Ava (Alicia Vikander) é a humanoide que têm inteligência artificial construída por Nathan. Há também uma personagem secundária chamada Kyoko (Sonoya Mizuno), que também é uma humanoide dotada de inteligência artificial, mas no começo do filme não sabemos disso.

O teste que Nathan instrui Caleb a fazer com Ava se acham “Teste de Turing”, nele se verifica a capacidade de uma máquina exibir comportamento e consciência equivalente de um ser humano. Sob a supervisão de seu chefe, Caleb começa a conversar com Ava, numa tentativa de estimular pensamentos, emoções e expressões da humanoide, mas a interação é tanta que Caleb se apega à Ava e começa a se interessar amorosamente por ela. Ava induz Caleb a questionar Nathan sobre a sua real intenção com o teste e com isso o programador descobre o interesse do chefe em “bancar Deus” por criar, desmontar e recriar robôs. Todas as criações de Nathan tinham sido estereotipadas como mulheres.

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Caleb recebe a missão de fazer um “Teste de Turing” com Ava (fonte: giphy)

Segundo a filósofa Simone de Beuvoir, em “O Segundo Sexo”, a relação que os homens têm com as mulheres é uma relação de submissão e dominação. No decorrer da história da humanidade, a categoria do gênero “mulher” não é definida pela mulher, mas é pelo homem e através do olhar masculino ao vê-la e construí-la socialmente como ele quer. Assim, atribui-se a categoria do Outro na filosofia beauvoriana, pois se trata de um papel de submissão enraizada na hierarquização da relação entre homens e mulheres, onde o homem é o Mesmo e a mulher é o Outro. Por isso, sob esse olhar, a mulher é dominada.

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Nathan destrói suas criações quando elas não atingem os objetivos (fonte: giphy)

É nesse contexto que Nathan se relaciona com Ava e com as outras humanoides que criou, num contexto onde ele (homem) cria Ava (mulher) do jeito que quer, sob o seu olhar, sob seus preconceitos e a domina ao submetê-la a testes, ao trancá-la em um quarto e ao não deixa-la cumprir suas próprias vontades. Aliás, Nathan faz isso com todas as suas criações, todas são mulheres e ele as descarta quando percebe que não atingiram ao seu objetivo. O filme mostra de forma metafórica o esforço dos homens em objetificar as mulheres segundo o prazer masculino, por exemplo, Kyoko é na verdade um robô que serve como escrava sexual. É nesse sentido que estou tentando explicar as práticas dos homens em submeterem as mulheres segundo o prazer do Mesmo.

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Kyoko é uma escrava sexual (fonte: giphy)

Caleb questiona Nathan sobre a escolha da sexualidade de Ava, pois, na teoria um robô é uma caixa cinza dotada de inteligência artificial. Nathan utiliza argumentos freudianos ao dizer que humanos são seres inteligentes dotados de sexualidade, por isso, para construir uma máquina com inteligência artificial verdadeira seriam necessários elementos humanos como a sexualidade e, por isso, uma caixa cinza nunca poderia se passar por um ser humano.

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Ava (fonte: giphy)

Ava é uma humanoide dotada de inteligência artificial e desde o início do filme não temos certeza de suas intenções. O tempo todo Ava nos provoca a questionar se ela é inocente e realmente não sabe de nada que está acontecendo ou se ela tem noção da sua realidade e usa uma possível inocência para manipular Caleb. Nathan utiliza uma tela de Jackson Pollock para explicar o funcionamento do cérebro, onde todas as ações são minuciosamente planejadas, mesmo que as vezes seja de forma automática. As ações de Ava estão repletas de razões para cada movimento, palavra ou expressão, por isso, no final do filme fica evidente como a personagem se apropria dessa capacidade para se afirmar como um ser independente e também se afirmar como mulher dona de si.

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Nathan utiliza uma tela de Jackson Pollock para explicar o funcionamento do cérebro (fonte: giphy)

Ava planeja sua fuga e se aproveita da sensibilidade humana de Caleb ao ganhar empatia e incitar suspeitas sobre o comportamento de Nathan. Ela também o seduz e desperta o lado protetor de Caleb quando a humanoide demonstra medo de Nathan. O programador se aproveita do descontrole do chefe com álcool e liberta Ava. Nesse momento acontece uma cena muito interessante, porém quase despercebida, em que Kyoko encontra Ava e elas cochicham. A metáfora presente na cena citada diz respeito à importância da ajuda das mulheres entre si, pois as personagens são dominadas por um mesmo homem e é possível entender que elas estavam juntas no plano de se libertar juntas do sistema dominante. Kyoko tenta matar Nathan com uma faca, mas ele a destrói e então Ava toma controle da situação e termina de golpear seu criador com a faca. Aí se encontra a metáfora da Síndrome de Frankenstein, onde Ava precisa matar quem a criou para poder se afirmar como alguém e não como o Outro.

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Ava e Kyoko (fonte: giphy)

A android prende Caleb em um dos cômodos da casa e vai em busca de seu reconhecimento como um ser dotado de consciência. Ava chega ao quarto em que Nathan guardava as humanoides anteriores a ela e, em um momento de reconhecimento, aos poucos vai tirando o revestimento de pele dos humanoides destruídos para colocar em si mesma. Ava usa um vestido e veste uma peruca para se olhar no espelho: ela se encontra no mundo como um ser autossuficiente, livre e com personalidade própria. Finalmente Ava pode ser e viver da maneira que quer.

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Ava (fonte: giphy)

“Ex Machina” não é pessimista ao nos mostrar as consequências de uma possível obsessão por progresso tecnológico. Chega a ser lógico pensar que um ser dotado de consciência e inteligência não quer ser submetido a exploração, por isso, não podemos culpar Ava por querer ser alguém, por negar a situação do Outro e por utilizar as suas capacidades intelectuais para conseguir o que quer. As discussões éticas e existencialistas provocadas pelo filme são tantas! A verdade é que o filme traz mais perguntas que respostas:

  • Há necessidade no ser humano em dominar o Outro? Seja homem, mulher, animais ou até mesmo robôs.
  • Se fôssemos capazes de criar máquinas com inteligência artificial, teríamos o direito de destruí-las quando quisermos? Mesmo que tais seres sejam melhores intelectualmente que nós? Mesmo que eles também sejam capazes de destruir a espécie humana?
  • Empresas que manipulam dados, como a hipotética Blue Book, têm o direito de utilizar nossas informações e tendências de comportamento digital para fazerem o que quiserem?
  • Será que a realidade – muitas vezes assustadora – já ultrapassou a ficção?

Uma lição que é importantíssima para mim é a crítica que o filme faz à tentativa milenar do homem dominar a mulher em campos tão diversos quanto a esfera tecnológica. E a resposta surpreendente é que a mulher pode sim se afirmar como ser e buscar a sua independência. É fantástico porque em certos momentos pensei que Ava ia ficar com Caleb de forma amorosa, mas não fica. Ava não poderia ficar com alguém sem saber quem ela mesma é, por isso, talvez de forma cruel ao deixar Caleb sozinho, ela vai em busca das práticas de sua liberdade.

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Ava se afirma como Ser (fonte: giphy)

Você pode assistir ao trailer do filme aqui.

Compilado de links:

A seguir os links utilizados como fontes para esta publicação:

https://blogdaboitempo.com.br/2016/04/07/categoria-do-outro-o-olhar-de-beauvoir-e-grada-kilomba-sobre-ser-mulher/

http://www.artperceptions.com/2015/08/ex-machina-instinto-artificial.html

https://www.proibidoler.com/resenhas/ex-machina-2015-pense-fora-da-caixa-ou-da-maquina/

http://www.portalitpop.com/2017/07/critica-ex-machina-instinto-artificial.html#axzz4nTJkXzcb

http://obviousmag.org/cha_com_bolacha_e_arte/2016/ex-machina-instinto-artificial-e-a-criacao-de-humanos-mais-humanos.html

 

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